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Ensaio

O leão e a ovelha

A frase acerta ao condenar a vida sem risco. Erra quando sugere que o leão não precisa sobreviver.

Leão macho deitado sobre uma pedra
Um leão macho deitado sobre uma pedra. Foto: Byrdyak, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

"Prefiro viver um dia como leão a viver cem anos como ovelha." A frase circula em perfis de empreendedorismo como se fosse nova, mas tem mais de dois séculos. A versão mais antiga registrada é atribuída a Tipu Sultan, governante de Mysore, na Índia, morto em 1799: ele preferia viver dois dias como tigre a duzentos anos como ovelha. A forma com o leão ficou famosa num muro à beira do rio Piave, na Itália, escrita por soldados em 1918, e depois foi usada como propaganda pelo regime fascista.

A origem importa menos que a ideia, e a ideia merece ser levada a sério, com as duas metades que ela tem.

O que a frase acerta

A ovelha da frase não é quem trabalha para outra pessoa. É quem adia indefinidamente o que quer fazer porque o próximo passo dá medo. A ideia de negócio que fica anos no caderno, o pedido de demissão que espera o momento certo, o preço que não sobe porque o cliente pode reclamar.

Rebanho de ovelhas numa encosta de montanha
Rebanho de ovelhas nos Alpes franceses. Foto: Pline, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Esse tipo de vida tem um custo que não aparece em planilha nenhuma: o tempo. Cada ano esperando condições perfeitas é um ano a menos para errar, aprender e tentar de novo. Quem começa aos 25 pode quebrar duas vezes e ainda ter vinte anos para acertar. Quem espera até os 45 tem bem menos margem.

Nesse ponto, a frase está certa. Uma vida inteira evitando qualquer risco também é uma aposta, e costuma ser uma aposta ruim.

O que a frase esconde

A outra metade é menos inspiradora. A frase promete um dia de leão e não diz o que acontece no segundo dia. No mundo dos negócios, o leão que aposta tudo de uma vez costuma ter exatamente isso: um dia.

Um estudo do Sebrae divulgado em junho de 2021 mostrou que 29% dos microempreendedores individuais fechavam em até cinco anos, assim como 21,6% das microempresas e 17% das empresas de pequeno porte. Entre os que fecharam, 22% apontaram a falta de capital de giro como motivo, segundo a Fenacon. Não faltou coragem a essas pessoas. Faltou fôlego.

Há ainda um viés em toda história de leão. Lemos sobre quem apostou alto e venceu, porque quem apostou alto e perdeu não dá entrevista. A Insider e o Nubank, das nossas duas primeiras anatomias, são lembrados pelo crescimento. Mas os dois cresceram com o cuidado de não quebrar no caminho: a Insider com caixa próprio e dívida controlada, o Nubank com custo baixo e reserva para calotes.

Coragem com sobrevivência

O leão de verdade não ataca tudo o que se mexe. Escolhe a presa, espera o momento e guarda energia para a próxima caçada, porque errar uma não pode custar a vida. A imagem serve melhor ao empreendedor do que a frase: coragem para agir, disciplina para continuar vivo depois de errar.

Na prática, isso cabe em três regras simples. Arrisque o que você pode perder, não o que não pode: o dinheiro do aluguel não é capital de risco. Teste pequeno antes de apostar grande, como a Insider fez com a loja temporária antes da definitiva. E mantenha caixa para alguns meses ruins, porque o negócio que sobrevive ao primeiro erro ganha o direito de tentar de novo.

Esquema: apostar tudo uma vez leva ao fim do jogo; muitas apostas pequenas mantêm o negócio vivo

A escolha não é entre um dia de leão e cem anos de ovelha. É entre apostar tudo uma vez e apostar o suficiente muitas vezes. A primeira faz boas histórias. A segunda faz empresas.

Pergunta da semana

Qual risco você está adiando há mais tempo e quanto dele você poderia perder sem fechar as portas?

Responda a este e-mail. As melhores respostas entram, sem nome, num próximo ensaio.

Fontes